No 106.º Aniversário de Filipe Gameiro Pereira

Passamos a divulgar uma parte Histórica do seu trabalho publicado em 1963 pela Federação Portuguesa de Futebol.

Capa do Livro

 

 

 

Apontamentos Sobre a Arbitragem do Futebol-Extracto-Blogue-2017

Extracto do texto original

“… O futebol, um desporto por natureza excitante, possui, sem dúvida, uma história bastante curiosa, digna até de a ela nos referirmos com maior largueza, mas que a falta de tempo nos impossibilita, dado que não queremos deixar de frisar outros factos de interesse e que dizem respeito ao futebol contemporâneo.

Os primeiros sintomas da existência do verdadeiro futebol verificaram-se nos primeiros anos do século XIX. Todavia, o professor H. A. Giles, da Universidade de Cambridge, durante as suas buscas, conseguiu reunir elementos comprovativos de que o mesmo já existira na China, muito antesde Júlio César que trouxe o seu jogo chamado HARPASTUM, para a Grã-Bretanha. Documentação chinesa atribui a certo Imperador amarelo (isto no seu período), a existência do futebol como parte do treino militar daquela época. Verificou-se isto na dinastia de Han, há cerca de dois mil anos.

A citada história, refere-se a um jogo chamado TU CHU cuja tradução nos dá o seguinte: TSU, significava dar um pontapé, e CHU, uma bola feita de couro.

Existiam então duas formas diferentes de praticar o futebol. O primeiro jogava-se no dia do aniversário natalício do Imperador e os dois grupos defrontavam-se sempre em frente do Palácio Real. Duas varas de bambú, com cerca de 9 metros de altura, eram colocadas no terreno de jogo, as quais eram ornamentadas com bonitas fitas de seda. Entre as duas varas era colocada uma rede de seda, no meio da qual existia um buraco, com cerca de 30 cm de diâmetro, por onde os jogadores procuravam introduzir o esférico. Eram então estabelecidos vários prémios, mas, em contrapartida, o «capitão» dos vencidos era humilhado pùblicamente.
Os jogadores que mais se destacavam tinham sempre facilidades na sua carreira, e um, por exemplo, foi promovido a general do exército do país, dada a sua alta categoria de futebolista. Outro, que perdera um olho du
rante um jogo, como indemenização, foi nomeado para um alto cargo do Ministério da Obras Públicas.
A outra forma de jogar, consistia em, segundo a expressão então usada, «a bola nunca deve abandonar o pé, assim como o pé nunca deverá abandonar a bola», isto é, o jogador devia manter o esférico a saltar sobre o pé, defendendo assim a sua posse. Constituia isto, ao tempo, o sistema de «dribling».
No Japão também se praticou um jogo chamado KEMARI o qual se jogou durante 14 séculos, tendo o terreno de jogo 14 metros quadrados. Em cada canto era plantada uma árvore de espécie diferente e o número de participantes no referido jogo era de oito. O jogo consistia em passarem a bola uns aos outros, sem paragens. Em Itália, o medieval jogo florentino chamado Calcio, palavra ainda hoje usada pelos italianos para designarem o futebol, jogava-se na Piazza Della Signoria, em Florença, duas vezes por ano. A primeira no primeiro domingo de Maio e, a segunda, a 24 de Junho, dia de S. João Baptista, patrono daquela cidade.
Pode dizer-se que o Calcio, para os italianos, é um jogo histórico, porquanto, em 1530, a cidade era duramente atacada por forças imperiais, jogando no entanto a nobreza debaixo do fogo dos atacantes. No dia do jogo, era feriado em toda a cidade e o comércio fechava. Constituíam-se dois grupos, brancos e encarnados, cada um dispondo de 27 jogadores, dos quais 15 eram avançados e os restantes defensores da baliza que tinha a largura do campo do jogo.
Há dúvidas se o futebol jogado na Grã-Bretanha tem origem no romano HARPASTUM ou no grego EPISKYROS. O que não há dúvida é que séculos antes de aparecer o «cricket» e os desportos náuticos, o povo havia adorado o futebol.
Por o julgarmos oportuno, resolvemos incluir neste modesto trabalho, um extracto do que escrevemos em 1949 sobre o Curso que frequentámos em Londres.
O futebol na Grã-Bretanha, data segundo a tradição, do ano 55 A.C., quando as legiões imperiais comandadas por Júlio César, conquistaram a Inglaterra.
Segundo a documentação oficial do Século II, na altura em que se começou a povoar a ilha de Purbek, ao sul da Inglaterra, foi atribuída a cada habitante certa área de terreno, usando-se o seguinte processo para limitar a respectiva área: No local onde se começava a contar a distância, era colocada uma bexiga de porco cheia de ar, e, então, era convidado o ndidato à posse do terreno a dar-lhe um pontapé. O terreno compreendido entre o ponto de partida e o local onde parava a bexiga, ou seja, o espaço por ela percorrido, era atribuído ao chutador. O testemunho dessa documentação encerra, sem dúvida, a antiguidade deste desporto na Grã-Bretanha.
Jogou-se depois nas ruas, mas acabou por ser proibido em virtude dos muitos inconvenientes e das lutas acesas a que dava lugar.
Mais tarde, praticou-se nos caminhos, entre as localidades, tendo por terreno de jogo o caminho que ficava entre as mesmas. O jogo tinha o seu início num ponto equidistante das localidades contendoras, geralmente perto de uma taberna e cada grupo devia fazer todo o possível por levar a bola, usando todos os meios ao seu alcance, à praça principal da localidade adversária. Em 1691, o futebol era tão popular que nem o genial William Shakespeare pôde evitar a sua influência, posto que, na sua obra «A Comédia das Equivocações» destinou a um dos personagens a seguinte expressão: «Corro para vós de tal maneira que me havia tomado por futebol, passando-me assim de um ao outro. Vós lançais-me daqui e ele lança-me de lá. Se isto continua assim, o melhor é mandar-me forrar de couro.»
Ainda na mesma época, no seu livro «Anatomia das Almas» afirmou Stubes: « O futebol é um passatempo diabólico, jogo sanguinário e mortífero, mais que desporto amistoso, pois os jogadores sofrem fracturas de pernas, perdem olhos e nenhum praticante consegue sair do campo sem feridas.»
Por ser um jogo desumano e criminoso, o rei Carlos II de Inglaterra, proibiu-o no Século XVI, ao mesmo tempo que fazia sair um decreto pelo qual declarava punível com prisão e encarceramento quem praticasse tão criminoso desporto. Mais tarde, nos fins do Século XIX, reiniciou-se a prática do futebol mas sob certas regras, nos pátios dos Colégios e Universidades.
Até 1863, contava cada colégio, universidade ou clube, com leis próprias. Existiam então seis regulamentos distintos, posto que cada um elaborava o seu, sempre de acordo com as dimensões do terreno ou pátio com que contava para jogar. No Colégio de Rugby, que era onde se praticava mais futebol, existiam regras diferentes. Entretanto, é justo salientar que, acima de tudo isto, observava-se um amplo e alto espírito desportivo, visto que se mantinha em todas as instituições escolares o especial cuidado de não se tirar vantagem de sistemas ilegais. O jogo continuava a despertar entusiasmo e assim, a 26 de Outubro de 1863, na célebre taberna de Freemasen, 8 clubes e 4 colégios, reunidos em Assembleia Geral fundaram a Football Association, a que nós chamamos Federação Inglesa, tendo eleito três nomes históricos do futebol inglês: Pember, Morley e Cambell

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Nota: O texto está escrito com a ortografia usada na altura

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